O homem que sabia javanês, é o conto mais famoso do escritor Lima Barreto, onde o personagem Castelo relata ao seu amigo Castro, como pregou peças contra “as convicções e as respeitabilidades, para poder viver”
Contou que, ao chegar no Rio de janeiro vindo de Manaus, vivia na miséria, fugindo dos cobradores de aluguel das casas de pensão, foi quando leu anúncio no Jornal do Comércio, que dava conta de alguém necessitando de um professor de malaio. Imaginou que se tratava de ocupação para a qual não haveria muitos pretendentes. Como continuava fugindo de credores, o que evidenciava que a necessidade de se empregar era absoluta, enviou uma carta ao jornal, oferecendo-se para a vaga inusitada que se abria. Foi conhecer o autor do anúncio, interessado em tomar aulas de javanês. Tratava-se de um ancião. O aluno queria saber onde o professou aprendeu javanês. Como não contava com aquela pergunta, imediatamente arquitetou uma mentira. Falou que o pai era javanês. Contrataram condição, preço e hora. Castelo, com índole de estelionatário, muita lábia, rolando o lero, mesmo sem saber uma frase em javanês, aproveitou dos poderes: econômico e político do aluno e fez carreira diplomática chegando a Cônsul.
Mutatis mutandis (mudando o que tem de ser mudado), o fato que vou expor, tem estreita semelhança com a situação de Castelo.
No início do ano de 1976, tentei me estabelecer em Livramento, instalando Escritório de Advocacia com o amigo/irmão, Dr. Adão Alves de Castro.
Em razão da pouca demanda, consequência da falta de Juiz na Comarca, procurávamos ocupar o tempo ocioso com atividade física, principalmente futebol. Compramos um jogo de camisa e bolas, passado a jogar no campo Society do Polivalente, que comportava oito jogadores, o goleiro e mais sete.
Como o time era eclético entre faixa etária, técnica futebolística e força física, eu, Dr. Adão, Valtinho de seu Odulfo, Dr. Lourival, Nelson Beatão e Batista do Hospital éramos os mais idosos. Chiquinho de Francisquim, Roque Cambui, Marquinhos de Zé Brabo, Cessé de Gabrielão, Zica irmão de Albeci, Junei, Dinda, Tebé, Mucego e outros, os mais novos; na técnica Liberato era o destaque e na força física, Tonhão nove dedos batia na bola ou no jogador adversário como se estivesse dominando os bois da Fazenda Cafundó. Em certo lance tentando desarmar Julinho Xavier, chutou com tamanha força que a bola e o jogador subiram quase na mesma altura.
Na época estava no pico o personagem coalhada, criado e apresentado por Chico Anísio como símbolo do jogador malandro. Em sendo nosso time eclético, com alguns jogadores fisicamente parecidos com coalhada, principalmente em razão da cabeleira encaracolada, o nominamos de Coalhada Mista.
O imaginário popular entendo que, o bom jogador tem grande possibilidade de ser bom técnico, e em sendo o Dr. Adão muito bom jogador, meu estimado primo JESSÉ, então presidente do Livramento Esporte Clube o convidou para treinar a equipe, e ele a mim, para ser o seu auxiliar.
Avaliando a oportunidade para demonstrarmos o gosto pelo futebol, viabilizamos, também, o crescimento de nossa imagem para o público, e consequentemente o reflexo no nosso Escritório de Advocacia, mesmo porque, a inexistência da internet e da radio difusão, na época a boca a boca era o meio mais eficaz de se propagar, aceitamos o convite.
O primeiro teste jogando fora de Livramento, foi contra jogadores remanescentes do TALMAG de Brumado, no antigo Estádio dos Prazeres, hoje Gilberto Cardoso (Gilbertão). Considerando os desfalques de jogadores mais experientes, o resultado foi satisfatório, porque conseguimos empatar o jogo com o placar 0 X 0.
Para aquela partida escalamos jovens jogadores com potencial técnico promissor, como Tebé, Baguinho e Laé.
Satisfeitos com o desempenho da equipe, por intermédio do servidor da EMATER/BA, José Bonifácio, que era lotado no Escritório de Livramento e foi removido para Bom Jesus da Lapa, a direção do Livramento acertou com a direção do Flamengo da Lapa, partida a ser realizada no Estádio Edilson Pontes.
José Bonifácio quando residia em Livramento jogava conosco no campo do Polivalente. Atualmente é técnico agrícola concursado do Banco do Nordeste.
O jogo aconteceu e o resultado foi péssimo. Livramento 1 – Flamengo da Lapa – 6. Provavelmente foi a maior goleada que o time já levou. Nos primeiros 20 minutos do 1º tempo o Livramento dominou o jogo, marcou primeiro e chegou a marcar o segundo gol, anulado pelo árbitro, Antônio Lima, saudoso Tõe de Locha. A anulação do 2º gol nutriu o efeito de verdadeira ducha fria nos jogadores do Livramento. Ainda no primeiro tempo o Flamengo virou o resultado. Para o segundo tempo o Livramento voltou disperso, apático e o Flamengo ampliou a vantagem para 6 gols. Torcedores adversários, principalmente do Cruzeirinho, liderados por Benedito de Laura, enquanto vaiavam os jogadores, gritavam que o Livramento perdia de goleada para um time formado por jogadores boias-frias, catados em assentamentos do Município de Bom Jesus da Lapa, porquanto comandados por um servidor da EMATER que lhes prestava assistência tecnológica agrícola, ao invés de técnica futebolística.
Na verdade, o servidor da Emater foi apenas o canal de comunicação entre a direção do Livramento e do Flamengo da Lapa, e quem efetivamente o comandou em Livramento foi o senhor de prenome Mário, representante comercial morador em Vitória da Conquista, amigo do meu irmão Maricélio e de meu primo, o saudoso Antônio Hipólito. Mais tarde, o senhor Mário veio a ser sogro de Kél, jogador profissional, gêmeo de Zó.
Falaram até em boicote ao nosso trabalho. Possibilidade que descartamos de pronto. Jogadores do caráter de Rajado, Irineu, Hugo, Gatão e Evilásio, os mais experientes do time, aliás nenhum dos onze se prestaria para esse tipo de conduta.
O certo é que, ao final do jogo fiquei tão decepcionado ao ponto de literalmente perder o rumo de minha residência situada na Rua Dr. Nelson Leal. Depois de tomar uma água mineral no Bar de Nelson Beatão, que situava na mesma Rua, fui parar no Box de meu amigo Nelsino, no Mercado Municipal.
Dia seguinte, segunda-feira, renunciamos. Felizmente o resultado desastroso do jogo e nossa renúncia não influenciaram no nosso Escritório de Advocacia.
Conclusão: ensinar javanês sem saber sequer onde fica a Ilha de Java, na imaginária criação de Lima Barreto, é mais fácil do que treinar time de futebol quando os jogadores conhecem de cadeira e sabem ocupar o espaço e administrar o tempo no campo, a exemplo do elenco da Seleção Brasileira campeã mundial de 58, que o técnico Vicente Feola só ordenava ao roupeiro distribuir o uniforma. Durante o jogo, no banco, cochilava e expelia gases.
A diferença para a partida Livramento e Flamengo da Lapa é que, Dr. Adão e eu não podíamos cochilar, dada a arrelia da torcida contra o Livramento.
A experiencia valeu para a aplicação do dito popular “não coloca o chapéu onde sua mão não alcança”.