Reminiscência de minha vida em Piatã,  II.

POLÍTICA COM CAFÉ E FOLCLORE

Atendendo clamor popular, a Prefeitura de Piatã adaptou o caminhão Chevrolet, apelidado (Carolina) para conduzir romeiros ao Santuário de Bom Jesus da Lapa e anunciou no para-brisa: Piatã – Lapa, dia 2. Seria 2 de agosto.
Anibal filho Zé Hermínio e genro de Sinhô Xavier, adversário do grupo político ao qual meu pai, o prefeito João Hipólito, pertencia, trabalhava no Departamento de Estradas e Rodagens da Bahia (DER) em Caetité, setor de fiscalização de trânsito. Provavelmente por questão de estratégia política, criou casuísmo, detendo o veículo na passagem pelo Posto.
Repercutido o efeito do seu ato e politicamente explorado; com a interveniência de seu concunhado Alfredinho, o caminhão foi liberado e a romaria continuou. 

VIAS DE FATO;
Liesa não residia em Piatã, mas, quando chegava tinha bafafá. 
Certa noite moradores da Rua do Quebra Chifre conversavam em derredor de uma fogueira quando se iniciou discussão entre ele e Bemvindo, contador da Prefeitura, ambos com os estômagos carregados de “fofa toba”, destilado que mais desequilibra quem o ingere.
A discussão acirrou e Liesa, mais alto, deu velocidade no braço e socou o pé do ouvido de Bemvindo que, dizem, caiu no chão e só fazia virar os olhos procurando saber onde se encontrava.
   
EXEMPLO DE SUPERAÇÃO:
ANTÔNIO BARRÃO, portador de deficiência visual severa, massa corpórea redondinha, morava na Malhada da Areia e com proteção apenas de uma pequena bengala de madeira, transitava pelo caminho imigre para Piatã, Abaíra e Catolés, em dias de feira, a fim de mendigar.
O cidadão de estrutura física normal, tem cinco dedos em cada mão e em cada pé. Toe Barrão tinha seis, portanto, vinte e quatro no total.
No ato de posse do Rei Charles III, da Inglaterra, vi que Sua Majestade tem a mãozinha gorda igual a de Toe Barrão. 
LÉO DE DOMINGAS era portador de deficiência visual profunda e por outro lado parecia ser possuidor de sensor para reconhecer o indivíduo pela voz. As pessoas passavam por ele e lhe perguntava: “Como está seu peru, Leo? E ele respondia: “tudo azu”. Seu irmão Joaquim que o guiava, dizia: “esse é fulano Léu. Se tempo depois essa pessoa lhe fizesse a mesma pergunta ele respondia “tudo azul, fulano, dizendo o nome da pessoa.

FOLCLORE OU VERDADE?
BEBÉ, surdo e mudo, trabalhava normalmente, é claro, sem falava, mas, assobiava acompanhado com batidas numa caixa de fósforo como se estivesse ouvindo o som.
Gostava de dançar e numa certa noite, ao chegar da zona rural, foi direto para a Sociedade onde ocorria um baile. A palavra da época era baile que evoluiu para balada. 
Ao entrar no salão, Bebé levou com ele odor desagradável obrigando os dançarinos a gesticularem como se abanassem as narinas. 
Na sua linguagem de sinais, Bebé tentou justificar o mau cheiro que portava. Como as pessoas não entendessem, chamaram Joaquim de Zé Melo que era o melhor intérprete da linguagem de libras do surdo e mudo. Joaquim interpretou que Bebé tentava esclarecer que na zona rural pegou um gambá pelo rabo e o animal, como diz no popular “quebrou a caixa” na sua direção, destilando o fedor.
À época, até que aceitei o esclarecimento. Porém, recentemente li explicação de estudioso dando conta de que, os marsupiais, principalmente o gambá, ao contrário da fama, não eliminam substância com odor mau cheiroso.  
A pergunta está no ar: quem quebrou a caixa? Bebé ou o gambá?

AFLIÇÃO, MEDO e SOLUÇÃO
Ordinariamente eu tinha medo de dormir no escuro. Na Rua onde morávamos no rumo da casa de Apompo, diagonal à nossa residência erguia frondoso pé de cedro. O vento balançava seus galhos criando barulho que a noite me apavorava. Certa noite o vento mais forte abriu a janela do quarto da frente onde eu dormia e eu só senti, quando Godson Xavier, irmão de Dona Virinha, nossa vizinha, saiu da casa dele onde às vezes ia tomar chá e chamou para avisar que a janela estava aberta. O susto foi enorme. Ao contrário, durante o dia os pés de cedro me encantavam.
 O progresso urbanístico conduziu a administração pública a mandar derrubar um dos pés de cedro, o que ficava defronte da casa de D. Áurea. Durante dias o marceneiro José de Gregório, morador de Catolés trabalhou na derrubada da árvore, como diz no popular, na tora, porquanto ainda não se empregava na região as famosas motosserras. Com a derrubada da árvore mudou totalmente o panorama da Rua. Abriu clarão que parecia tê-la desnudada.   
Numa tarde de Domingo de Ramos, Dona Raquel e minha madrasta Adalgisa, nos reuniram para uma verdadeira via sacra para a Capela do Senhor do Bomfim na Serra de Santana. 
D Raquel em companhia de seu filho José do Rosário e sua filha adotiva Dinalva, da nossa casa, além de Adalgisa, eu, minha irmã Vanda, meu irmão Carlinhos e da casa de D. Dé,  duas de suas filhas, que não recordo se Toninha e Lací ou Magnólia e Maria, considerada, também, membro da família. Iniciamos a subida e depois de metade da caminhada, 600 metros, mais ou menos, D. Raquel sofreu uma vertigem, nos deixando apavorados. Tão logo se equilibrou, aceleramos serra abaixo e só paramos para descansa e encher os pulmões para a subida da ladeira no fundo da Igreja.
Adélia, esposa de Zé da Loja era minha tia, irmã de minha mãe e prima em 1º grau de ZÉ. Portanto, os filhos deles são meus primos em 1º e 2º graus. Os mais próximos de minha faixa etária são Zeliê e Dodó. O café da tarde com cinco xícaras ou voador, João duro, brevidade, manuê ou bolo frito no óleo de côco servido pela própria Adélia ou Maria de Leandro, sua auxiliar, era sagrado.
Carlos, meu tio, irmão de Adélia, morava em Catolés e as vezes passava dias em Piatã. Numa tarde, depois do café, eu, Carlos e Dó nos dirigimos, tocando o jegue com a cangalha, para a casa de Enedino, primo de Adélia que morava no Rosário, a fim de transportarmos feixes de vara cortada por Mundinho na larga de Zé Querino. As varas seriam usadas por Carlos na feitura de um poleiro na casa de Adélia. Passamos pela Rua do Quebra, Dó insistindo para montar na cangalha do jegue. Quando alcançamos o corredor que dava acesso ao Rosário, Carlos cedeu a insistência de Dó e o montou na cangalha. Assim que sentiu o peso, o jegue começou a trotar, Dó desequilibrou e caiu. Em princípio eu Carlos só fizemos sorrir, enquanto Dó chorava de dor. Retornamos, Carlos carregando Dó nos braços e chegando em Casa, Zé que morava na mesma casa onde funcionava a loja, vizinho de seu Izidro, farmacêutico e prático em primeiros socorros que ao examina constatou que o braço de Dó estava fraturado. Recorreram a Douzinho pedreiro que improvisou uma tala de madeira e imobilizou o braço fraturado. Em seguida Dó foi conduzido para Abaíra em busca de socorro médico.
Dias depois, minha irmã Celma, criança de braço, enfiou uma conta de rosário em uma das narinas e quem a socorreu fazendo expelir foi o Padre Rodolfo, exercitando suas práticas de ex-combatente na 2ª Guerra. 
Tempo depois, Vandinho, filho de nosso vizinho Chiquito, brincava numa peça de ferro deixada na pracinha, provavelmente componente de uma máquina maior pertencente a uma firma extratora de minério. Vandinho desequilibrou e caiu, bateu com a fronte no ferro sofrendo lesão extensa e profunda o que provocou forte hemorragia. Mais uma vez apelou-se pelos primeiros socorros de seu Izidro.
A necessidade de um médico permanente no município tornou-se imprescindível. Meu pai, o prefeito João Hipólito Rodrigues, “quebrando lanças”, conseguiu contratar o médico, DR. Valter, com residência e militância em Salvador. Contudo, para residir em Piatã o Dr. Walter condicionou a remoção de seu filho Jane, Promotora de Justiça da Comarca em que servia, para a Comarca de Piatã. Com esforço conjugado, principalmente de seu grande correligionário Alfredo Soares, e até adversários políticos, o Prefeito João Hipólito conseguiu a transferência de Dr. Walter e a remoção da Dra. Jane para a Comarca de Piatã. O resultado foi a satisfação dos munícipes com a presença do médico e maior ainda de Didi Soares que engatou namora com Dra. Jane, verdadeira Morena Tropica proseada por Vicente Barreto e cantada por seu parceiro Alceu Valença.

DOCE LEMBRAÇA
Dia de terça-feira, Rafael, conhecido como Rafel Correio, ou um dos seus filhos Leocádio ou Zé, conduzia a mala dos Correios de Piatã para o posto de Catolés. A agente do Posto era minha madrinha e mãe de criação Efigênia Vieira Assunção. No retorno, ela sempre mandava por um deles, guloseima para a minha merenda. Ninguém, além deles entendia a razão da minha presença na frente do Correio em Piatã, ao entardecer das terças-feiras, horário em que chegavam de rtorno. 

TRAGÉDIA

No Grupo Escolar Doque de Caxias fiz amizade, também, com os irmãos Valdo e Nilton, filhos de Osvaldo pedreiro. Numa das minhas idas a Catolés, soube que, Valdo, ainda adolescente, falecera vítima de verdadeira tragédia. Caiu de um jumento e teve a carótida perfurada por um pontiagudo capim-coqueirinho, provocando sangria impossível de estancar.
  
DESPERTAR
Despertava minha curiosidade e até me encantava, a frase gravada em alto relevo na platibanda da casa de Manoelzinho do Bar, pintada à tinta verde e bem visível: MEU NINHO.

SEGURANÇA PÚBLICA
Alcancei a Delegacia de Polícia ocupada por 3 Delegados. 
Na ordem cronológica: Salvador Santana, Ascânio e Salvador Pina;
Militares: Sargento que não recordo o nome, mas, lembro que era pai de um garoto apelidado Bolero Zing, craque de bola. Nível Arnaldo Soares, Quido, Zé de César, Zeca de Chico de Preto etc. O sargento tinha o hábito de andar portado uma varetinha na mão. Seu ajudante de ordem que o povo chamava ordenança, era Paulo, esposo de Nana filha de criação de D. Quinha. O coturno de Paulo ia além da canela. Chegava ao joelho. Portava um fuzil que a ponta do cano ia além da nuca, a bandoleira do ombro ao joelho e a coronha na panturrilha. Autêntico ninja tupiniquim
Posteriormente veio o Tenente Raimundo Nonato. Linha-dura. Sistema bruto.
Encerrado o mandato de meu pai mudamos para Livramento e a última vez em que vi o Tenente Raimundo Nonato foi no comando de uma diligência desastrosa em Livramento,  prendendo ciganos turcos.