A BAHIA QUE NÃO CABE EM UMA PESQUISA

Rui e Wagner aparecem fortes para o Senado. Jerônimo disputa o Governo em cenário apertado. O que os números revelam — e o que ainda não conseguem mostrar sobre o voto baiano?

Por João Hipólito Rodrigues Filho

 

Há uma pergunta que considero importante para compreender a eleição da Bahia em 2026:

Se Rui Costa e Jaques Wagner aparecem competitivos na disputa pelo Senado, o que isso nos diz sobre a força eleitoral do campo político que também apoia o governador Jerônimo Rodrigues?

Não se trata de afirmar que os votos serão necessariamente iguais. Eleitor não é obrigado a votar da mesma maneira para todos os cargos.

Mas existe também o movimento inverso: o eleitor pode reconhecer uma mesma trajetória política em diferentes candidaturas e transformar essa identificação em votos para governador e para o Senado.

É justamente essa possibilidade de convergência eleitoral que merece ser observada.

A fotografia das pesquisas

A pesquisa Paraná Pesquisas divulgada nesta quinta-feira, 24 de setembro, mostra ACM Neto com 46,7% e Jerônimo Rodrigues com 42,0% no cenário estimulado para governador. Para o Senado, Rui Costa aparece com 46,3% e Jaques Wagner com 34,0%, enquanto João Roma tem 27,3% e Angelo Coronel, 25,1%. No Senado, cada eleitor pode indicar até dois nomes. (Jornal Grande Bahia (JGB))

Pouco antes, o Real Time Big Data, realizado entre 4 e 8 de setembro, apontou Jerônimo com 45% e ACM Neto com 44%, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais. No mesmo levantamento, Rui Costa aparecia com 26% e Jaques Wagner com 19% na disputa pelo Senado. (CNN Brasil)

E a pesquisa Atlas/A Tarde, realizada entre 28 de agosto e 2 de setembro, também encontrou cenário de empate técnico entre ACM Neto e Jerônimo: 49,1% a 47,9% no primeiro turno. Para o Senado, Rui tinha 28,2% e Wagner, 23,7%. (UOL Notícias)

Ou seja: as pesquisas não apresentam uma fotografia única e definitiva da eleição. Elas mostram momentos diferentes de uma disputa em movimento.

Pesquisa é fotografia. A urna é o filme completo.

Uma pesquisa eleitoral é uma amostra da população. Ela procura representar o eleitorado por meio de metodologia estatística, distribuição geográfica, perfil dos entrevistados, ponderações e margem de erro.

Por isso, não é correto concluir que uma pesquisa está errada simplesmente porque apresenta um resultado diferente daquele que alguém observa nas ruas.

Da mesma forma, também não é correto transformar uma fotografia momentânea em certeza sobre o resultado da eleição.

A questão mais interessante é outra:

Que partes da Bahia estão sendo captadas por essa fotografia e como essas partes se comportarão quando forem chamadas a votar?

A Bahia não termina em Salvador

Esse é um ponto fundamental.

A Bahia possui 417 municípios. O Semiárido baiano abrange 287 deles, correspondendo a cerca de 85,6% do território estadual e aproximadamente 45% da população, segundo dados apresentados pela Superintendência de Estudos Econômicos e Sociais da Bahia (SEI), com base no Censo 2022. (SEI 30 Anos)

Isso não significa que o voto do Semiárido seja homogêneo — não é.

Mas significa que qualquer análise eleitoral da Bahia precisa levar em consideração a enorme dimensão territorial e a diversidade política do interior.

Quem acompanha eleição municipal sabe que existe uma realidade que nem sempre aparece com a mesma intensidade nas análises feitas a partir da capital.

Prefeitos, ex-prefeitos, vereadores, lideranças comunitárias, associações, sindicatos, agricultores, comerciantes e famílias inteiras participam de uma dinâmica política própria.

É uma política muito territorial.

A história eleitoral também precisa entrar na conta

Há ainda um dado histórico que não pode ser ignorado.

O grupo político liderado pelo PT venceu as eleições para o Governo da Bahia com Jaques Wagner em 2006 e 2010, Rui Costa em 2014 e 2018 e Jerônimo Rodrigues em 2022.

Em 2022, Jerônimo chegou ao segundo turno e terminou eleito com 52,54% dos votos válidos, contra 47,46% de ACM Neto, segundo o Tribunal Superior Eleitoral. (Justiça Eleitoral)

Essa história não determina o resultado de 2026.

Mas ela demonstra que existe na Bahia uma estrutura eleitoral consolidada, com presença em diferentes regiões do Estado.

Lula é importante. Mas Lula não explica tudo.

Outro ponto que merece atenção é o chamado “efeito Lula”.

O presidente exerce enorme influência eleitoral na Bahia, mas a eleição de governador não é simplesmente uma repetição da eleição presidencial.

O eleitor pode avaliar o presidente de uma maneira e o governador de outra.

Mas também pode acontecer o contrário: a identificação com Lula, Rui, Wagner e Jerônimo pode se reforçar mutuamente em determinados segmentos do eleitorado.

É aí que entra uma questão que as pesquisas de governador, isoladamente, não conseguem responder:

até que ponto a força eleitoral de Lula e das principais lideranças desse campo político consegue convergir para a candidatura ao Governo do Estado?

E existe uma segunda pergunta, igualmente importante:

até que ponto a força de Rui e Wagner para o Senado pode caminhar junto com a candidatura de Jerônimo?

Não se trata de afirmar que isso necessariamente acontecerá.

Trata-se de reconhecer que essa possibilidade existe e precisa fazer parte da análise.

Rui, Wagner e Jerônimo: três votos, uma mesma eleição

A eleição de 2026 tem uma característica especial: o eleitor baiano escolherá governador e dois senadores.

Isso cria uma dinâmica diferente.

Um eleitor pode escolher um candidato a governador e dois candidatos ao Senado de campos políticos diferentes.

Mas também pode optar por votar em candidatos que estejam politicamente associados.

Os números atuais tornam essa questão particularmente interessante.

Na pesquisa Paraná divulgada em 24 de setembro, Rui Costa aparece com 46,3% e Jaques Wagner com 34,0% para o Senado, enquanto Jerônimo registra 42,0% no cenário estimulado para governador. (Jornal Grande Bahia (JGB))

Esses números não permitem concluir qual será o resultado da eleição.

Mas permitem formular uma pergunta legítima:

se existe força eleitoral demonstrada para Rui e Wagner, quanto dessa força poderá convergir também para Jerônimo no momento da decisão?

Essa é uma questão que só será respondida pela urna.

O interior pode ser decisivo para compreender o cenário

Quem já disputou eleição municipal sabe que o mapa eleitoral da Bahia não é construído apenas pelas grandes cidades.

No interior, a relação entre liderança política e eleitor é muitas vezes construída ao longo de anos.

Uma obra, uma estrada, um hospital regional, uma policlínica, uma escola, uma ação de saúde, uma associação comunitária ou uma relação política construída durante uma gestão podem entrar na avaliação que o eleitor faz diante da urna.

Isso não significa que obras ou alianças garantam votos.

Significa apenas que o comportamento eleitoral é resultado de múltiplos fatores — e que a realidade territorial não pode ser reduzida a uma única variável.

O que as pesquisas mostram — e o que elas não mostram

As pesquisas mostram o estado da intenção de voto no momento em que foram realizadas.

Elas ajudam a identificar tendências, medir níveis de conhecimento, rejeição, intenção de voto e mudanças no comportamento do eleitorado.

Mas não conseguem mostrar antecipadamente todas as decisões individuais que serão tomadas diante da urna.

Por isso, talvez a pergunta mais adequada para 2026 não seja:

“Quem está na frente hoje?”

A pergunta mais interessante é:

“Como as diferentes forças eleitorais da Bahia vão se combinar até o dia da eleição?”

Porque uma eleição para governador não acontece isoladamente.

Ela acontece simultaneamente com a eleição para presidente, Câmara Federal, Assembleia Legislativa e duas vagas para o Senado.

São escolhas diferentes, mas feitas pelo mesmo eleitor.

Não é previsão. É uma leitura do cenário.

Eu tenho minha posição política e minha preferência eleitoral. Isso é natural para quem participa da vida pública.

Mas uma análise séria precisa separar preferência de método.

O objetivo aqui não é dizer quem vai ganhar.

É chamar atenção para algo que considero fundamental: a Bahia é grande, diversa e politicamente complexa demais para ser compreendida apenas por uma fotografia.

As pesquisas são importantes.

A metodologia é importante.

A margem de erro é importante.

A distribuição territorial da amostra é importante.

A história eleitoral também é importante.

E, sobretudo, é importante observar como os diferentes votos podem convergir no momento da decisão.

No fim, a urna fecha a conta.

Não será o instituto de pesquisa.

Não será o comentarista.

Não será o dirigente partidário.

E não será uma análise como esta.

Será o eleitor baiano.

E, no dia 4 de outubro, capital, interior, Semiárido, zona urbana e zona rural transformarão todas essas tendências, avaliações, alianças e expectativas em votos.

Pesquisa é instrumento.
A urna é resultado.

E talvez a pergunta mais importante desta eleição seja justamente esta:

QUANTO DA FORÇA ELEITORAL DE LULA, RUI E WAGNER PODERÁ CONVERGIR COM O VOTO EM JERÔNIMO?

Essa resposta não está em uma pesquisa.

Está na urna.