A infância em Livramento, por João Hipólito Rodrigues Filho

Nasci em 1969, quando Livramento de Nossa Senhora ainda crescia no compasso da terra e da água. Nos anos 70 e início dos 80, a cidade era pujante sem alarde. O arroz sustentava muita gente, a agricultura de subsistência ensinava a respeitar o tempo, e depois veio a barragem no Rio de Contas — cem milhões de litros represados — mudando o destino da região. A água trouxe regularidade, e Livramento virou terra de manga, maracujá e lavoura irrigada. Mas antes de tudo isso virar produção e estatística, era apenas vida. E era infância.

Infância ali era sazonal. Não seguia relógio, seguia vento, chuva e colheita. Quando ventava, era tempo de empinar pipa — suro. Linha na mão, olho no céu, disputa silenciosa. Em outros dias, bola de gude, joelho ralado, bolso pesado de vidro colorido. Tudo tinha sua hora, como a lavoura.

E havia o dinheiro.

Não o dinheiro de verdade, mas o que valia mais do que ele. A gente fazia dinheiro com carteira de cigarro. Arizona, Hollywood, Continental, Palmal. Cada uma tinha um valor — cinco, dez cruzeiros — conforme a raridade e o estado. Eu era considerado um dos mais ricos nesse sistema. Colecionava, organizava, guardava. Era um mercado sério. Como também eram sérias as coleções de calendário, as folhinhas de Ano Novo, que marcavam o tempo quando o tempo ainda se pendurava na parede.

Mas talvez nada fosse tão importante quanto o carrinho de tábua.

A gente construía verdadeiras “federais”, vilas inteiras feitas de compensado, prego torto e imaginação certa. As rodas eram chapiadas com borracha, o volante era um cabo de vassoura firme. Não era brinquedo: era veículo. Não se andava — dirigia-se. Às vezes o carrinho virava caminhão, às vezes servia para ir buscar umbu, fruta da época, às vezes só descia ladeira abaixo, sentindo o mundo correr.

Tudo improvisado. Tudo entendido sem explicação.

A feira também educava.

Os animais ficavam amarrados, o povo negociava, e a gente observava. Mas a feira não era só comércio; era cor, cheiro e gosto. Chegavam frutas de toda parte, especialmente do Mato Grosso, localidade vizinha de Rio de Contas. Pequi, tangerina, laranja-cravo, banana, tudo com cheiro de terra fresca. Era uma fartura simples, natural, sem embalagem. As frutas tinham tempo e tinham gosto.

E os quintais completavam isso.

Toda casa tinha um. Mangueira carregada, pinha abrindo no tempo certo, melancia que era melancia de verdade — doce, vermelha, do sertão. Uva também. Lembro de atravessar quintal só para contemplar uma parreira, a uva verde protegida com fogo em lata, para não dar bicho e também para ninguém se achegar. Eu não colhia: eu respeitava. Até hoje, quando como uma uva, é aquele prazer que volta. Não é a fruta — é a infância que reaparece no gosto.

Jogava-se bola em quadra de cimento batido, sem grade. Bola canarinho, bola dente de leite. Camisa não se comprava: se fazia. Tintol, pano simples, número à mão. Quando o Guarani foi campeão, fizemos camisa do Guarani. Pertencer era isso.

A televisão ajudava quando queria. Às vezes pegava, às vezes não. Girava-se antena, batia-se na lateral, alguém avisava que tinha melhorado. Não era sobre imagem perfeita, era sobre estar junto.

E havia a igreja.

A gente ia muito. Tinha o Clube UFA, o JUEQUE, o JUPAC, o JAVE, o Time de Cristo. Era encontro, era grupo, era convivência. O Ano Jovem de 1980 deixou a cidade viva de fé e participação. Aquilo moldava a gente sem alarde.

Nas festas, no Natal e na Semana Santa, havia respeito. Fazia-se jejum. Na Sexta-feira Santa, ia-se dar comida aos peixes. O Rio da Baixa era lugar de banho, de brincadeira e de silêncio. A cachoeira e as piscinas naturais eram nossos clubes. Água fria, corpo livre, tempo inteiro.

À noite, vinham os causos. Histórias contadas com respeito, quase em segredo. A gente acreditava. E acreditava também nos mais velhos, na palavra da avó, no conselho dado sem pressa. Havia temor, havia respeito, havia escuta.

Hoje, aos 56 anos, caminhando para os 57, minha vida seguiu. Seguiu bem. Há tranquilidade, há conquistas. Mas falta, às vezes, aquela medida antiga de prazer. Não o prazer anunciado, mas o inteiro.

O prazer de lavar uma bicicleta e sair sem destino. O prazer de dirigir um carrinho de tábua como coisa séria. O prazer de ser rico com dinheiro que não comprava nada. O prazer de um tempo que ensinava sem pressa.

E quando, às vezes, escuto na memória o som seco de uma roda chapiada correndo no asfalto quente, entendo sem esforço: eu não ia a lugar nenhum. Ainda assim, ia inteiro. Porque ali não faltava nada. O tempo não corria — caminhava comigo. E talvez seja por isso que, mesmo depois de tantos caminhos, ainda seja ali, naquela infância em Livramento, que eu chego mais longe.


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