A eleição da Bahia ainda está aberta — e o interior será decisivo
A eleição para o Governo da Bahia em 2026 ainda está longe de estar definida. As pesquisas mais recentes mostram uma disputa apertada, com vantagem numérica de ACM Neto em alguns levantamentos e empate técnico em outros. Portanto, não há espaço para triunfalismo de nenhum dos lados.
Mas existe uma pergunta fundamental para entender essa eleição: onde será decidido o resultado?
A resposta passa necessariamente pelo interior.
Em 2022, Jerônimo Rodrigues venceu a eleição para governador com 52,79% dos votos válidos, contra 47,21% de ACM Neto. A diferença foi de aproximadamente 473 mil votos. Ao mesmo tempo, ACM Neto venceu com larga vantagem em Salvador. Isso significa que a vitória de Jerônimo foi construída, sobretudo, pela força eleitoral que o campo governista conseguiu reunir fora da capital.
E é justamente essa vantagem territorial que está em disputa agora.
A oposição sabe que não basta manter sua força na capital e nas grandes cidades. Para chegar ao Palácio de Ondina, precisa reduzir a diferença que o grupo governista tradicionalmente consegue construir nos municípios do interior.
Daí a importância que passou a ser dada a cada vereador, ex-prefeito, ex-candidato ou liderança municipal que anuncia mudança de apoio.
Mas existe uma diferença entre uma adesão política e a transferência automática de votos.
Em determinado município pequeno, um ex-candidato pode ter disputado uma eleição municipal e agora anunciar apoio a outro grupo. A adesão tem valor político e deve ser respeitada. Mas não significa que todos os eleitores que votaram nele estarão obrigatoriamente no mesmo palanque na eleição estadual.
O eleitor não é propriedade de prefeito, ex-prefeito, vereador ou deputado.
E essa regra vale para os dois lados.
Também existem lideranças que estavam no campo oposicionista em 2022 e hoje estão alinhadas ao governo. O mapa político municipal mudou, e continua mudando. Por isso, contar adesões como se fossem votos fechados pode produzir uma fotografia enganosa da eleição.
Outro fator será decisivo: o voto em Lula.
Em 2022, Lula teve cerca de 72% dos votos na Bahia, enquanto Jerônimo terminou a eleição estadual com 52,79%. Ou seja, milhões de baianos votaram em Lula para presidente e não necessariamente repetiram a escolha para governador.
Esse fenômeno volta a ser central em 2026. A campanha de Jerônimo trabalha para aproximar novamente os dois votos, enquanto a oposição tenta justamente preservar o eleitor que gosta de Lula, mas pretende votar em ACM Neto para governador. Esse chamado “voto LuNeto” já é reconhecido como uma das variáveis importantes da disputa atual. (Folha de S.Paulo)
É por isso que a eleição não pode ser analisada apenas pela quantidade de prefeitos ou lideranças que cada candidato consegue reunir.
Prefeito tem força. Ex-prefeito tem história. Vereador conhece a realidade local. Deputado possui estrutura política. Mas ninguém carrega consigo, em uma eleição estadual, todos os votos de uma cidade.
O que importa é saber se a liderança consegue convencer o eleitor.
E aqui aparece outra variável importante: a avaliação do governo.
Jerônimo chega à disputa tentando transformar quatro anos de governo em voto. A regionalização da saúde, os hospitais, policlínicas, escolas, estradas, obras de infraestrutura e investimentos nos municípios fazem parte desse patrimônio político.
A oposição, por sua vez, tenta mostrar que ainda existem problemas e que há um caminho diferente para a Bahia.
É assim que uma eleição deve ser disputada: comparando governos, propostas, resultados e perspectivas para o futuro.
As pesquisas de agosto mostram que a disputa está aberta. A Quaest aponta empate técnico entre ACM Neto e Jerônimo no primeiro turno, enquanto a Paraná Pesquisas apresenta vantagem maior para Neto. (Folha de S.Paulo)
Portanto, dizer hoje que qualquer lado já ganhou seria precipitação.
A verdadeira questão é quem conseguirá transformar estrutura política em voto.
E, nesse ponto, o interior continuará sendo fundamental.
A Bahia tem 417 municípios, com centenas de cidades pequenas e médias. É nesses municípios que as relações políticas são mais próximas, que as obras estaduais são percebidas diretamente e onde prefeitos e lideranças possuem presença cotidiana.
Por isso, a eleição de 2026 não será decidida apenas pelos grandes palanques de Salvador, nem pela lista de adesões que circula diariamente nas redes sociais.
Será decidida quando o eleitor entrar na cabine.
Mais importante do que perguntar “quem mudou de lado?” é perguntar:
para onde está caminhando o eleitor?
É essa resposta — e não a quantidade de fotografias em palanques — que definirá o próximo governador da Bahia.
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